É assim que as coisas são, as portas se abrem mesmo sem você bater e se fecham quando você menos espera.
Entramos no elevador e eu apertei o número 7. Dennis me olhou desconfiado.
- Como você sabe que é o andar certo?
Eu não fazia a menor idéia.
- Eu apenas sei.
Era tudo tão tecnológico aquilo tudo, não combinava com o prédio, que tinha uma arquitetura muito rústica e antiga, com gárgulas nos parapeitos das janelas e anjos esculpidos em outras paredes. Tudo contrastava com o sistema de identificação da entrada, o elevador digital.
Quando saímos do elevador vimos um tapete vermelho que se alongava pelo corredor largo, haviam dois apartamentos, eu segui para o da esquerda. Dennis não falava nada, apenas me seguia.
Chegando à porta eu percebi que não tinha nenhuma chave também e novamente Dennis me olhou desconfiado.
- É mais uma chave eletrônica, você está me assustando, acho melhor eu te deixar aqui e voltar para o trabalho.
Ele disse isso mas não se moveu. Eu continuei olhando para a fechadura com um leitor de digital e mais um teclado de números, mas falei:
- Você é quem sabe. Não está curioso?
Eu sabia que ele estava e eu sabia que ele não ia embora. Olhei então pra ele e ergui a sobrancelha.
- Sim estou, e não vou te deixar sozinha, com todos esses ferimentos.
Eu sorri e fixei a fechadura. Passei meu dedão no leitor e o display ficou verde e identificou minha digital:
“IDENTIFICAÇÃO POSITIVA”
-- Alicia L´Enfer--
Digite sua Senha:
Eu não pensei duas vezes e digitei novamente os mesmos número que havia digitado na porta principal do prédio: 4233517
Mais uma vez eu ouvi o rangido de engrenagens de ferro se movimentando, um estalo e então a porta abriu.
Dennis não parecia estar assustado, mas sim curioso e ansioso.
- L´Enfer???
Eu não estava tão surpresa.
- Parece que sim. Vamos entrar.
Empurrei a porta devagar e ele veio atrás, fechando a porta.
Entramos e eu segui por um pequeno corredor, do lado direito havia um aparador e em cima, na parede um espelho com bordas decoradas. Olhei para aquilo e parei quando me encontrei no meio do espelho. Era a primeira vez que eu me via, fiquei paralisada. Pisquei uma vez e ergui minha mão para alisar meu rosto. Eu não sei o que me chocava, se era a minha fisionomia ou a minha aparência desastrosa. Um rosto branco com olhos que não eram castanhos e também não eram verdes, meu cabelo era liso mas estava desgranhado, da minha testa até meu queixo descia um macha cor de vinho, era o sangue mal limpo depois de escorrer da minha têmpora. Os cortes que o farmacêutico me falou que precisavam de pontos eu não consegui encontrar. Eu tinha uma boca bem vermelha as sobrancelhas eram altas, nariz fino. Dennis apareceu atrás de mim.
- Não se preocupe, você ainda é bonita, um banho vai resolver o seu problema e precisamos cuidar desses... Onde estão os cortes????
Eu gostaria de saber também, só tinha sangue coagulado na minha pele, e bastante. Eu conclui:
- Não deveriam ser tão grandes assim, vocês deveriam estar exagerando.
As sobrancelhas dele se fecharam e os olhos se apertaram.
- Isso não é possível eu os vi, eu realmente estava preocupado.
Oque dizer quando não se tem as respostas?
- Que bom então que eu não preciso de pontos. Não é mesmo?
Ele não estava entendendo nada e muito menos eu.
- Sim ... Quero dizer, não sei. Você tinha cortes fundos, na testa e nos braços, eu não posso ter me enganado tanto assim. O motorista do taxi tava pior que você, pois ele estava mais próximo. Mesmo assim os vidros do carros te atingiram com bastante força.
Claro que tinham, eu vi as pontas afiadas vindo com vontade pra cima de mim.
- Acho que eu tenho boa cicatrização, melhor assim, vamos parar de conversa e vamos olhar esse lugar.
Dennis passou a minha frente e logo me chamou, eu ainda olhava o espelho.
- Ei venha aqui ver isso.
Passei pelo corredor e encontrei um lugar amplo e arejado. Janelas que percorriam toda a largura do apartamento, não haviam paredes. Do lado esquerdo tinha 2 degraus que levavam a uma cama grande e muitos travesseiros, ao lado da cama uma escrivania com um notebook em cima, do outro lado havia uma porta que levava ao banheiro e ao closet. Em frente ao corredor tinha um sofá largo com um TV suspensa na pequena parede que dividia as janelas. Do lado direito fica uma mesa triangular e atras dela uma bancada de mármore, dando a volta nessa bancada ficava a cozinha, uma geladeira enorme, microondas, armários, enfim uma cozinha muito boa.
Olhei par onde Dennis estava parado, ele olhava para a parede onde a cama estava. Então eu percibi o que ele olhava. Era um painel enorme com uma foto minha. A foto era como se eu estive indo e olhei para traz e junto um vento veio e jogou um pouco do meu cabelo pra frente do meu rosto. Eu vestia um vestido preto de costas nuas. Eu tinha um olhar triste e pesaroso, como se estivesse me despedindo e dando a última olhada pra traz. Eu fiquei tentando decifrar aquela minha foto, tentando lembrar onde foi tirada, mas não veio nada.
Dennis continuou:
- Acho que essa é a prova definitiva de que você mora aqui. Essa foto é estranha, você não parece feliz. Lembra dela?
Acho que dava pra ver na minha cara.
- Não, é totalmente estranha pra mim, assim como a imagem no espelho. Eu estou muito perdida... Aquele homem que se jogou do prédio, ele falou algo pra mim.
Dennis virou pra mim:
- Eu duvido muito, ele deve ter morrido quase que instantaneamente quando caiu, você deve ter batido a cabeça quando o deslocamento de ar te arremessou no chão, esse deve ser o motivo da sua falta de memória.
Ele só me viu no chão, normal ele pensar isso.
- Não, eu já tinha perdido a memória antes disso, eu não sei de onde eu vim, acordei dentro do parque, no meio das árvores, quase enterrada no chão, só lembro de abrir os olhos, tentar me levantar e sentir muitas dores nas minhas costas, e depois lembro das minhas mãos escrevendo o endereço do papel que te entreguei.
Ele parecia surpreso:
- Você acha que foi atacada, que alguém quis te fazer algum mal, sei lá? O mundo é perigoso. Alguém pode ter te desovado la, achando que você tava morta. Acho que devemos procurar a polícia.
Eu achei aquilo engraçado. Alguém querer me fazer mal??? Alguém achando que eu estava morta??? Eu nunca me senti tão viva.
- Relaxa, não foi isso, ninguém iria me fazer mal. Eu só preciso me limpar.
Ele me olhou torto:
- Você só pode ser louca. Você ta rindo? Você tava toda arrebentada horas atrás, um homem morreu na sua frente, se despedaçou é um termo melhor. Alias, o que você acha que ele te disse? Coisa que eu duvido muito que aquele ser tenha feito.
Nossa, ele pareceu irritado, mas por que?
- Quando eu estava no chão, quando eu consegui identificar que era uma pessoas no meio do carro destruído, ele ainda tinha um sopro de vida. E usou esse sopro pra dizer: “VOCE”. Não me pergunte se era uma pergunta ou uma afirmação, porque eu não sei.
E eu não sabia mesmo. E pareceu acreditar nisso.
- Que dia hein, que coisa sinistra, nunca eu imaginei que acordaria hoje e tropeçaria em você. Será que esse homem te conhecia? Quem sabe vocês fossem se encontrar. Precisamos nos informar sobre ele.
Não sei porque ele se importava com isso, eu achei melhor deixar ele continuar a vida dele.
- Eu acho melhor você voltar para a sua vida, você já fez muito por mim hoje. Agora eu preciso descansar, tomar um banho. Afinal você deve ter uma vida, certo?
Ele riu meio sem vontade:
- É eu preciso trabalhar e sim eu tenho uma vida. Eu preciso mesmo ir, mas eu posso voltar? Eu quero trazer novidades, ou pelo menos tentar.
Fiquei na dúvida:
- Hmmm eu não sei, eu não sei se é uma boa idéia.
Ele riu:
- Eu vou voltar, se não quiser abrir a porta é outra história.
Bom, como ele disse, eu não quiser eu não abro a porta.
- Ok, eu te levo até a porta, o resto do caminho você sabe.
Então abri a porta pra ele sair e antes de fechar eu lembrei de uma coisa:
- Ah, não esquece de dar comida para o Martin.
Nem pensei muito, apenas falei. Acho que não deveria ter falado.
- Como você sabe o nome do meu cachorro????
Eu fechei a porta antes que ele pudesse ter uma resposta minha.
Sentei no sofá e senti uma tonteira, tudo aquilo foi muito rápido, eu tinha tantas perguntas e ninguém para responder. O que eu fazia no parque? Porque aquele homem caiu bem na minha frente? Quem era Dennis? Ou a melhor das perguntas: QUEM SOU EU?
A palavra que o homem disse antes de realmente morrer, também não saia da minha cabeça. Então eu lembrei do que eu senti ao olhar o homem triturado no meio do carro amassado. Todo aquele sangue, pingando, escorrendo, fazendo poças no chão. Eu senti fome.
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