É mais fácil viver no passado do que enfrentar o futuro, no passado os fantasmas já são conhecidos e não nos assustam tanto.
Sentada no sofá eu coloquei os pés em cima e abracei os meu joelhos, recostei minha testa neles e fechei os olhos por um instante. Eu me sentia tão cansada e no meu peito parecia haver um buraco. Eu tentava tanto me lembrar de algo que minha cabeça começou a doer. Resolvi então andar pelo apartamento e conhecer o que pareciam ser minhas coisas.
Fui até a cozinha, nos armários panelas e jogos de jantar, nas gavetas talheres e acessórios. Abri a geladeira, tinha bastante comida, mas nada que me chamasse a atenção, porém meu estomago roncava, peguei um yogurt. Continuei pela lavanderia depois voltei para a sala, na mesa de centro havia uma foto minha, mas só o rosto, alguns objetos de decoração.
No rack abaixo da TV, bem no centro, me impressionei com uma escultura perturbadora, uma mulher de joelhos segurando um corpo inerte de um homem que tinha a cabeça tombada para traz e os braços caídos, dava pra ver as lágrimas descendo do rosto dela. Quando percebi, lágrimas desciam do meu rosto também, e uma dor sem tamanho tomou conta do meu peito, uma tristeza me dominou, mas eu não sabia o porquê. Alguma coisa em mim acordou, eu não sabia o que era, doía tanto, alguma coisa faltava em mim, algo que eu não podia viver sem e então eu entendi o painel em cima da cama, eu sabia que tinha deixado algo pra traz. Aquela foto dizia tudo, mas não explicava nada.
Subi os degraus olhando para o painel, eu queria que aquela imagem se movesse e me falasse algo, fui em direção ao closet para chegar ao banheiro. Eu precisava recarregar as energias com um banho e roupas limpas, a aguá quente deveria tirar todo o peso que eu estava sentindo em cima de mim. O banheiro era grande, tinha um espelho que tomava boa parte da parede e ao fundo uma banheira que parecia a visão do paraíso naquele momento. Deixei a banheira enchendo enquanto observava os objetos na bancada da pia. Nada demais, escova de dente, maquiagem, cremes e perfumes, um roupão azul no pendurador. Joguei as minhas roupas sujas e rasgadas no cesto de lixo e entrei na banheira. Meu corpo todo estremeceu e então relaxou.
Acho que eu adormeci, porque quando abri os olhos senti a água quase fria. Sai da banheira e me vesti com o roupão, fui até o closet e fiquei tonta com a quantidade de roupa, até demorei pra encontrar uma camiseta comprida. Assim eu fui para a cama, eu ainda estava exausta.
Durante a noite tive lapsos do que aconteceu durante o dia, flash de sangue escorrendo, as arvores do parque, Dennis me carregando. Pela manhã senti algo me balançar, quando abri os olhos dei de cara com um rapaz de olhos azuis e cabelo castanho claro, pensei que estava sonhando, até que ele sorriu e disse:
- Bom dia...... Alicia.
Eu pulei da cama, ele estava com a mão debaixo do meu colchão, no sorriso dele eu não via dentes e sim presas, era um sorriso sarcástico e malicioso, mas ele me conhecia. Eu estava curiosa e com raiva por ele ter invadido minha suposta casa e quase gritei:
- QUEM É VOCÊ? E OQUE FAZ AQUI??
Ele retirou a mão debaixo do colchão, na sua mão tinha um livro e disse calmamente:
- Pergunta errada. Eu estou cuidando para que as coisas não saiam do controle.
Ele não me inspirava nenhuma confiança, eu fiquei em alerta e cuidando de todos os seus movimentos, como um leopardo olhando sua presa e fui firme ao dizer:
- Do controle de quem?
Ele sorriu novamente e respondeu:
- Oras, de quem tem interesse.
Isso não respondia a minha pergunta então eu o ameacei:
- Não pense que vai sair daqui com isso nas mãos.
Ele ergueu uma sobrancelha e me desafiou:
- É exatamente o que eu vou fazer, querida.
Então antes de falar alguma coisa eu pulei por cima da cama e acertei um chute na mão dele. Isso fez o livro cair no meio da sala. O rapaz pareceu não ter gostado:
- To vendo que continua com ótimos reflexos.
Ele tentou correr para o livro mas eu corri junto e o empurrei com força e ele se escorou na parede.
- Ok, isso pode ser da maneira fácil ou difícil.
Eu não baixei a guarda:
- Nada até agora está sendo fácil.
Ele pulou num salto e me atingiu no peito, eu cai sentada, mas no mesmo momento passei uma rasteira nele. Voei pra cima enquanto ele estava no chão e enchi sua cara de socos. Ele me golpeou e eu cai no chão de novo, achei que era minha vez de levar socos, mas não, ele só segurou minhas mãos e disse:
- Porque com você as coisas tem sempre que ser assim??
Quem era esse cara? de que coisas ele estava falando?
- Me diga você, mas não pense que vai levar o livro.
Ele me olhou por um instante e disse:
- É verdade mesmo, você só tem um buraco no peito.
Ele me soltou e riu, ele só sabia rir??? Ele arrumou a gola e as mangas de sua camisa branca e disse:
- Agora seja uma boa menia e me deixe ir.
Ele virou as costa e foi em direção ao livro. Ele pulei e me pus em pé dando-lhe um soco nos rins, ele caiu de joelhos:
- ISSO DOI SABIA??
Eu não disse nada, ele levantou e veio furioso em minha direção, minhas mãos cruzaram o ar, ele desviou o soco e também o chute, eu fiz o mesmo, parecia uma dança, mas derrepente ele parou e olhou pra cima, segurou um último chute meu e disse:
- Até logo Alicia, espero que sinta minha falta.
Me deu uma piscada de olhos e pulou pela janela que ele tinha aberto. Pulou do 7º andar?? Sim.
Eu corri pra ver, mas não tinha nada, apenas o sol começando a nascer.
Mais um mistério na minha vida, tudo o que eu precisava. Saí da janela e vi o livro no chão. Observei-o no chão por um tempo, me ajoelhei ao seu lado, não tinha coragem de pegá-lo. O que tinha naquele livro? Quem era aquele homem? Mais um desconhecido na minha vida e o segundo que parecia me conhecer. Respirei fundo e peguei-o em minha mãos. Senti o peso de uma vida ou mais naquelas páginas, mais pesado do que realmente parecia. Fiquei um bom tempo segurando e criando coragem para abri-lo e nem reparei no que estava escrito na capa.
Olhei com mais cuidado e vi o que estava escrito:
Alicia!
Não era um livro, era um diário, o meu diário. Fiquei pasma e quando me preparava para abrir, o interfone tocou, eu sabia que era Dennis.
Continua...