Não plante e nem regue suas sementes no terreno de outra pessoa, amanhã você pode chegar e se deparar com um muro.
Ele pegou o papel da minha mão e leu o endereço em voz alta, no final falou:
- Ali? Esse é o seu nome?
Eu não sabia, mas o som daquelas tres letras me soou familiar, então eu concordei. Não tinha reparado que tinha  aquele nome abaixo do endereço.
Eu comecei a me apoiar pra levantar e ao tentar me erguer senti minhas pernas fracas e quase cai de novo. Ele me segurou pela cintura e disse:
- Vamos, vou te colocar naquele banco logo ali pra você se recuperar e sairmos dessa confusão antes que a polícia chegue e comece a nos fazer perguntas. Afinal o cara está morto, ninguem ia sobreviver a queda de um prédio desses.
Consegui me levantar com a ajuda dele, mas eu não conseguia tirar os olhos do sujeito ensanguentado no carro. Os olhos ainda abertos pareciam que me seguiam, aquela cor vermelha escorrendo me fez sentir algo. Eu não sabia o que era, mas era de uma certa forma prazeroso, e também repugnante. O sangue escorria do corpo, pelos braços caídos, pela cabeça, caía pela lataria amassada do carro e então pingava em bicas no chão. As pessoas estavam horrorizadas, homens discutindo pra saber o que havia acontecido, mulheres chorando, alguns em choque, eu olhava aquilo como uma cena de filme. Fui andando guiada por meu ajudante, mas olhava pra tras, aquilo me fascinava e me arrepiava.
Sentamos à uns cem metros da confusão. Eu nao tinha olhado direito para o rapaz que estava me ajudando, só agora reparei que tinha cabelos e olhos pretos, pele bem clara, era mais alto do que eu, vestia calças jeans, uma camiseta branca com uma camisa aberta por cima. Estava calmo apesar da situação.  Ele me olhou de baixo até em cima.
- Você não está nada bem, parece que foi você quem caiu.
E entao soltou um sorriso simpático, talvez pra eu me sentir melhor. Eu só apertei os olhos e me olhei também. Meus braços estavam cheios de pequenos cortes que sangravam por baixo do casaco, meu corpo doia, não era somente as costas agora. Fiz uma careta de dor ao me mexer.
- Você precisa limpar esses ferimentos, principalmente no rosto.
Por reflexo eu passei as mãos no rosto e acho que acabei espalhando o sangue. Como meu casaco estava rasgado mesmo, limpei o rosto com ele, ardeu. Ele tentou me ajudar, mas eu recuei, entao ele se conteve.
Entao ele me perguntou:
- Então, Ali é o seu nome?
Pela primeira vez eu escutei o som da minha voz e sem pensar respondi:
- Meu nome é Alicia.
Foi muito estranho, eu parecia cacofônica, mas ele me olhou com gentileza.
- Alicia. Eu me chamo Dennis. Bom, eu não estou acostumado a ver pessoas caindo do céu, e nem ficarem naquele estado, isso está me deixando nervoso. Esse endereço que está no papel, é onde você mora?
Respondi:
- Eu não…Eu não sei.
Ele pensou e franziu a testa.
- Mas é pra lá que você quer ir?
Era o único destino que eu tinha, pra onde mais eu iria?
- Sim.
Ele olhou novamente o papel, olhou para os lados.
- Não é longe daqui, podemos ir a pé, quer dizer se você conseguir, mas nós teremos que passar de novo pelo cara arrebentado ali. Algum problema pra você?
Eu acenei que não com a cabeça.
Voltamos, ele me ajudou a levantar, eu ja estava melhor e conseguia caminha sozinha. voltamos ao local do acontecido, a policia ja estava lá e estavam retirando o corpo. Alguém apontou pra mim, mas eu virei o rosto, ele me puxou e continuamos.
Pensei que estavamos voltando para o parque. Ele parecia preocupado comigo.
- Vamos ali naquela farmácia, precisamos cuidar desses machucados.
Não gostei da ideia.
- Não precisa, eu estou bem.
Ele não desistiu.
- Você está começando a sangrar bastante no pescoço, não vai doer.
Obvio que não ia doer, mais do que ja estava doendo era dificil, mas resolvi seguí-lo. Entramos na farmácia, tinha um farmaceutico la que disse que eu precisaria de pontos, mas ali eles não podiam fazer esse procedimento. Mesmo assim ele nos deu bandagens e meu companheiro comprou mais algumas coisas.
Continuamos, achei realmente que ia voltar para o parque, mas viramos em uma rua bem antes de chegar nele. Após andarmos por um bom tempo virando em uma rua e depois em outra, paramos em frente a um prédio, alto e muito largo.
- Acho que é aqui Alicia, o que acontece agora?
Eu não sabia o que dizer.
- Eu não sei.
Olhei pra cima, não era estranho olhar o edifício, então fui até a portaria, eu não tinha chaves e não tinha porteiro. Olhei a porta de madeira revestida por uma malha de aço muito bem trabalhada com anjos e eras. Do lado direito tinha um teclado com números e um display. Segui meus instintos e digitei alguns numeros, pareciam aleatórios. Meu companheiro, ajudante, anjo salvador, ou sei lá o que ele era arregalou os olhos.
- Você está loca? Isso pode disparar algum alarme.
Eu não dei ouvidos, em seguida apertei um botão verde. Parecia que nada ia acontecer, mas derrepente ou vi um barulho na porta, um bip contínuo e então a porta abriu. Olhei para tras e ele não parecia entender.
- Parece que você mora neste endereço.
Abri a porta e entrei, olhei novamente para tras e ele não se mexeu.
- Você vem ou não?
Ele coçou o pé do cabelo, apertou os lábios e entrou comigo.
Continua…