segunda-feira, 30 de maio de 2011

6>> Abrir uma porta não significa encontar o que se procura.

É assim que as coisas são, as portas se abrem mesmo sem você bater e se fecham quando você menos espera.

Entramos no elevador e eu apertei o número 7. Dennis me olhou desconfiado.
- Como você sabe que é o andar certo?
Eu não fazia a menor idéia.
- Eu apenas sei.
Era tudo tão tecnológico aquilo tudo, não combinava com o prédio, que tinha uma arquitetura muito rústica e antiga, com gárgulas nos parapeitos das janelas e anjos esculpidos em outras paredes. Tudo contrastava com o sistema de identificação da entrada, o elevador digital.
Quando saímos do elevador vimos um tapete vermelho que se alongava pelo corredor largo, haviam dois apartamentos, eu segui para o da esquerda. Dennis não falava nada, apenas me seguia.
Chegando à porta eu percebi que não tinha nenhuma chave também e novamente Dennis me olhou desconfiado.
- É mais uma chave eletrônica, você está me assustando, acho melhor eu te deixar aqui e voltar para o trabalho.
Ele disse isso mas não se moveu. Eu continuei olhando para a fechadura com um leitor de digital e mais um teclado de números, mas falei:
- Você é quem sabe. Não está curioso?
Eu sabia que ele estava e eu sabia que ele não ia embora. Olhei então pra ele e ergui a sobrancelha.
- Sim estou, e não vou te deixar sozinha, com todos esses ferimentos.
Eu sorri e fixei a fechadura. Passei meu dedão no leitor e o display ficou verde e identificou minha digital:
“IDENTIFICAÇÃO POSITIVA”
-- Alicia L´Enfer--
Digite sua Senha:

Eu não pensei duas vezes e digitei novamente os mesmos número que havia digitado na porta principal do prédio: 4233517
Mais uma vez eu ouvi o rangido de engrenagens de ferro se movimentando, um estalo e então a porta abriu.
Dennis não parecia estar assustado, mas sim curioso e ansioso.
- L´Enfer???
Eu não estava tão surpresa.
- Parece que sim. Vamos entrar.
Empurrei a porta devagar e ele veio atrás, fechando a porta.
Entramos e eu segui por um pequeno corredor, do lado direito havia um aparador e em cima, na parede um espelho com bordas decoradas. Olhei para aquilo e parei quando me encontrei no meio do espelho. Era a primeira vez que eu me via, fiquei paralisada. Pisquei uma vez e ergui minha mão para alisar meu rosto. Eu não sei o que me chocava, se era a minha fisionomia ou a minha aparência desastrosa. Um rosto branco com olhos que não eram castanhos e também não eram verdes, meu cabelo era liso mas estava desgranhado, da minha testa até meu queixo descia um macha cor de vinho, era o sangue mal limpo depois de escorrer da minha têmpora. Os cortes que o farmacêutico me falou que precisavam de pontos eu não consegui encontrar. Eu tinha uma boca bem vermelha as sobrancelhas eram altas, nariz fino. Dennis apareceu atrás de mim.
- Não se preocupe, você ainda é bonita, um banho vai resolver o seu problema e precisamos cuidar desses... Onde estão os cortes????
Eu gostaria de saber também, só tinha sangue coagulado na minha pele, e bastante. Eu conclui:
- Não deveriam ser tão grandes assim, vocês deveriam estar exagerando.
As sobrancelhas dele se fecharam e os olhos se apertaram.
- Isso não é possível eu os vi, eu realmente estava preocupado.
Oque dizer quando não se tem as respostas?
- Que bom então que eu não preciso de pontos. Não é mesmo?
Ele não estava entendendo nada e muito menos eu.
- Sim ... Quero dizer, não sei. Você tinha cortes fundos, na testa e nos braços, eu não posso ter me enganado tanto assim. O motorista do taxi tava pior que você, pois ele estava mais próximo. Mesmo assim os vidros do carros te atingiram com bastante força.
Claro que tinham, eu vi as pontas afiadas vindo com vontade pra cima de mim.
- Acho que eu tenho boa cicatrização, melhor assim, vamos parar de conversa e vamos olhar esse lugar.
Dennis passou a minha frente e logo me chamou, eu ainda olhava o espelho.
- Ei venha aqui ver isso.
Passei pelo corredor e encontrei um lugar amplo e arejado. Janelas que percorriam toda a largura do apartamento, não haviam paredes. Do lado esquerdo tinha 2 degraus que levavam a uma cama grande e muitos travesseiros, ao lado da cama uma escrivania com um notebook em cima, do outro lado havia uma porta que levava ao banheiro e ao closet. Em frente ao corredor tinha um sofá largo com um TV suspensa na pequena parede que dividia as janelas. Do lado direito fica uma mesa triangular e atras dela uma bancada de mármore, dando a volta nessa bancada ficava a cozinha, uma geladeira enorme, microondas, armários, enfim uma cozinha muito boa.
Olhei par onde Dennis estava parado, ele olhava para a parede onde a cama estava. Então eu percibi o que ele olhava. Era um painel enorme com uma foto minha. A foto era como se eu estive indo e olhei para traz e junto um vento veio e jogou um pouco do meu cabelo pra frente do meu rosto. Eu vestia um vestido preto de costas nuas. Eu tinha um olhar triste e pesaroso, como se estivesse me despedindo e dando a última olhada pra traz. Eu fiquei tentando decifrar aquela minha foto, tentando lembrar onde foi tirada, mas não veio nada.
Dennis continuou:
- Acho que essa é a prova definitiva de que você mora aqui. Essa foto é estranha, você não parece feliz. Lembra dela?
Acho que dava pra ver na minha cara.
- Não, é totalmente estranha pra mim, assim como a imagem no espelho. Eu estou muito perdida... Aquele homem que se jogou do prédio, ele falou algo pra mim.
Dennis virou pra mim:
- Eu duvido muito, ele deve ter morrido quase que instantaneamente quando caiu, você deve ter batido a cabeça quando o deslocamento de ar te arremessou no chão, esse deve ser o motivo da sua falta de memória.
Ele só me viu no chão, normal ele pensar isso.
- Não, eu já tinha perdido a memória antes disso, eu não sei de onde eu vim, acordei dentro do parque, no meio das árvores, quase enterrada no chão, só lembro de abrir os olhos, tentar me levantar e sentir muitas dores nas minhas costas, e depois lembro das minhas mãos escrevendo o endereço do papel que te entreguei.
Ele parecia surpreso:
- Você acha que foi atacada, que alguém quis te fazer algum mal, sei lá? O mundo é perigoso. Alguém pode ter te desovado la, achando que você tava morta. Acho que devemos procurar a polícia.
Eu achei aquilo engraçado. Alguém querer me fazer mal??? Alguém achando que eu estava morta??? Eu nunca me senti tão viva.
- Relaxa, não foi isso, ninguém iria me fazer mal. Eu só preciso me limpar.
Ele me olhou torto:
- Você só pode ser louca. Você ta rindo? Você tava toda arrebentada horas atrás, um homem morreu na sua frente, se despedaçou é um termo melhor. Alias, o que você acha que ele te disse? Coisa que eu duvido muito que aquele ser tenha feito.
Nossa, ele pareceu irritado, mas por que?
- Quando eu estava no chão, quando eu consegui identificar que era uma pessoas no meio do carro destruído, ele ainda tinha um sopro de vida. E usou esse sopro pra dizer: “VOCE”. Não me pergunte se era uma pergunta ou uma afirmação, porque eu não sei.
E eu não sabia mesmo. E pareceu acreditar nisso.
- Que dia hein, que coisa sinistra, nunca eu imaginei que acordaria hoje e tropeçaria em você. Será que esse homem te conhecia? Quem sabe vocês fossem se encontrar. Precisamos nos informar sobre ele.
Não sei porque ele se importava com isso, eu achei melhor deixar ele continuar a vida dele.
- Eu acho melhor você voltar para a sua vida, você já fez muito por mim hoje. Agora eu preciso descansar, tomar um banho. Afinal você deve ter uma vida, certo?
Ele riu meio sem vontade:
- É eu preciso trabalhar e sim eu tenho uma vida. Eu preciso mesmo ir, mas eu posso voltar? Eu quero trazer novidades, ou pelo menos tentar.
Fiquei na dúvida:
- Hmmm eu não sei, eu não sei se é uma boa idéia.
Ele riu:
- Eu vou voltar, se não quiser abrir a porta é outra história.
Bom, como ele disse, eu não quiser eu não abro a porta.
- Ok, eu te levo até a porta, o resto do caminho você sabe.
Então abri a porta pra ele sair e antes de fechar eu lembrei de uma coisa:
- Ah, não esquece de dar comida para o Martin.
Nem pensei muito, apenas falei. Acho que não deveria ter falado.
- Como você sabe o nome do meu cachorro????
Eu fechei a porta antes que ele pudesse ter uma resposta minha.
Sentei no sofá e senti uma tonteira, tudo aquilo foi muito rápido, eu tinha tantas perguntas e ninguém para responder. O que eu fazia no parque? Porque aquele homem caiu bem na minha frente? Quem era Dennis? Ou a melhor das perguntas: QUEM SOU EU?
A palavra que o homem disse antes de realmente morrer, também não saia da minha cabeça. Então eu lembrei do que eu senti ao olhar o homem triturado no meio do carro amassado. Todo aquele sangue, pingando, escorrendo, fazendo poças no chão. Eu senti fome.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

5>> Ajudas são bem vindas.

Não plante e nem regue suas sementes no terreno de outra pessoa, amanhã você pode chegar e se deparar com um muro.
Ele pegou o papel da minha mão e leu o endereço em voz alta, no final falou:
- Ali? Esse é o seu nome?
Eu não sabia, mas o som daquelas tres letras me soou familiar, então eu concordei. Não tinha reparado que tinha  aquele nome abaixo do endereço.
Eu comecei a me apoiar pra levantar e ao tentar me erguer senti minhas pernas fracas e quase cai de novo. Ele me segurou pela cintura e disse:
- Vamos, vou te colocar naquele banco logo ali pra você se recuperar e sairmos dessa confusão antes que a polícia chegue e comece a nos fazer perguntas. Afinal o cara está morto, ninguem ia sobreviver a queda de um prédio desses.
Consegui me levantar com a ajuda dele, mas eu não conseguia tirar os olhos do sujeito ensanguentado no carro. Os olhos ainda abertos pareciam que me seguiam, aquela cor vermelha escorrendo me fez sentir algo. Eu não sabia o que era, mas era de uma certa forma prazeroso, e também repugnante. O sangue escorria do corpo, pelos braços caídos, pela cabeça, caía pela lataria amassada do carro e então pingava em bicas no chão. As pessoas estavam horrorizadas, homens discutindo pra saber o que havia acontecido, mulheres chorando, alguns em choque, eu olhava aquilo como uma cena de filme. Fui andando guiada por meu ajudante, mas olhava pra tras, aquilo me fascinava e me arrepiava.
Sentamos à uns cem metros da confusão. Eu nao tinha olhado direito para o rapaz que estava me ajudando, só agora reparei que tinha cabelos e olhos pretos, pele bem clara, era mais alto do que eu, vestia calças jeans, uma camiseta branca com uma camisa aberta por cima. Estava calmo apesar da situação.  Ele me olhou de baixo até em cima.
- Você não está nada bem, parece que foi você quem caiu.
E entao soltou um sorriso simpático, talvez pra eu me sentir melhor. Eu só apertei os olhos e me olhei também. Meus braços estavam cheios de pequenos cortes que sangravam por baixo do casaco, meu corpo doia, não era somente as costas agora. Fiz uma careta de dor ao me mexer.
- Você precisa limpar esses ferimentos, principalmente no rosto.
Por reflexo eu passei as mãos no rosto e acho que acabei espalhando o sangue. Como meu casaco estava rasgado mesmo, limpei o rosto com ele, ardeu. Ele tentou me ajudar, mas eu recuei, entao ele se conteve.
Entao ele me perguntou:
- Então, Ali é o seu nome?
Pela primeira vez eu escutei o som da minha voz e sem pensar respondi:
- Meu nome é Alicia.
Foi muito estranho, eu parecia cacofônica, mas ele me olhou com gentileza.
- Alicia. Eu me chamo Dennis. Bom, eu não estou acostumado a ver pessoas caindo do céu, e nem ficarem naquele estado, isso está me deixando nervoso. Esse endereço que está no papel, é onde você mora?
Respondi:
- Eu não…Eu não sei.
Ele pensou e franziu a testa.
- Mas é pra lá que você quer ir?
Era o único destino que eu tinha, pra onde mais eu iria?
- Sim.
Ele olhou novamente o papel, olhou para os lados.
- Não é longe daqui, podemos ir a pé, quer dizer se você conseguir, mas nós teremos que passar de novo pelo cara arrebentado ali. Algum problema pra você?
Eu acenei que não com a cabeça.
Voltamos, ele me ajudou a levantar, eu ja estava melhor e conseguia caminha sozinha. voltamos ao local do acontecido, a policia ja estava lá e estavam retirando o corpo. Alguém apontou pra mim, mas eu virei o rosto, ele me puxou e continuamos.
Pensei que estavamos voltando para o parque. Ele parecia preocupado comigo.
- Vamos ali naquela farmácia, precisamos cuidar desses machucados.
Não gostei da ideia.
- Não precisa, eu estou bem.
Ele não desistiu.
- Você está começando a sangrar bastante no pescoço, não vai doer.
Obvio que não ia doer, mais do que ja estava doendo era dificil, mas resolvi seguí-lo. Entramos na farmácia, tinha um farmaceutico la que disse que eu precisaria de pontos, mas ali eles não podiam fazer esse procedimento. Mesmo assim ele nos deu bandagens e meu companheiro comprou mais algumas coisas.
Continuamos, achei realmente que ia voltar para o parque, mas viramos em uma rua bem antes de chegar nele. Após andarmos por um bom tempo virando em uma rua e depois em outra, paramos em frente a um prédio, alto e muito largo.
- Acho que é aqui Alicia, o que acontece agora?
Eu não sabia o que dizer.
- Eu não sei.
Olhei pra cima, não era estranho olhar o edifício, então fui até a portaria, eu não tinha chaves e não tinha porteiro. Olhei a porta de madeira revestida por uma malha de aço muito bem trabalhada com anjos e eras. Do lado direito tinha um teclado com números e um display. Segui meus instintos e digitei alguns numeros, pareciam aleatórios. Meu companheiro, ajudante, anjo salvador, ou sei lá o que ele era arregalou os olhos.
- Você está loca? Isso pode disparar algum alarme.
Eu não dei ouvidos, em seguida apertei um botão verde. Parecia que nada ia acontecer, mas derrepente ou vi um barulho na porta, um bip contínuo e então a porta abriu. Olhei para tras e ele não parecia entender.
- Parece que você mora neste endereço.
Abri a porta e entrei, olhei novamente para tras e ele não se mexeu.
- Você vem ou não?
Ele coçou o pé do cabelo, apertou os lábios e entrou comigo.
Continua…

4>> As vezes as pessoas caem do céu

Se perder de si mesmo te faz encontrar coisas que você não imaginava que existiam,  e essas coisas nem sempre são boas.
Caminhei de vagar pelo parque, minhas costas queimavam, levei mais de uma hora pra atravessar o parque em direção aos edifícios. Quando deixei as arvores e gramados para tras dei de encontro com uma avenida, bastante movimentada, carros, motos, pessoas andando rápido, prédios enormes que tiravam a luz do sol das calçadas. Parei um instante pra olhar melhor as coisas e decidir pra que lado seguir, alguém passou rápido quase levando meu ombro junto, falou algo que eu não pude distinguir, resolvi ir para a mesma direção.
Eu andava de vagar, as pessoas me ultrapassavam, parei em frente a uma janela de vidros enormes, la dentro estavam pessoas sentandas, lendo, comendo, quando alguém abriu a porta senti uma nuvem invadir meu cerebro com o cheiro que saiu com a pessoa, coloquei as mãos sobre meu estomago que reclamava alto, um instinto que eu nao conhecia. Estranho porque eu sabia que precisava de dinheiro pra poder estar la dentro, mas de onde vinha essa consciência? Era melhor eu continuar minha caminhada, eu estava com o endereço nas mãos. Não sabia o que fazer com ele, até que avistei alguns carros, taxis eu acho. Talvez ali eu conseguisse inforamaçoes pra onde ir.
Estava me aproximando de um dos homens que passava uma flanela no parabrisas do carro, ele se virou e me viu, percebeu que eu ia pedir algo, quando eu ia esticando minha mão para entregar o papel com o endereço escutei um assovio alto e logo em seguida um estrondo muito mais alto que me fez apertar os olhos. Uma pressão me jogou sentada no chão, senti estilhaços cortarem meu rosto. Pareceu camera lenta, senti o ar me carregando, os braços voando para tras, meus olhos fechando e vendo os estilhaços de vidro vindo em minha direção, até que cai, foi apenas um segundo. Eu abri os olhos e vi o homem da flanela caído de bruços ao meu lado, firmei minhas mãos no chão, que arderam, quando olhei para frente vi o carro que um segundo antes estava limpo e brilhando, agora estava afunilado no meio, sem os vidros, parecia que algo tentou dobrá-lo ao meio e não consegui totalmente. Ao focalizar no meio do carro eu vi algo se mecher, era um homem, novo ainda talvez, sangue escorria dele, por todos os lados, ele abriu os olhos e os arregalou quando me viu. Antes de abandonar seu corpo de vez ele fixou os olhos em mim e disse: VOCÊ.
Não sei se era uma pergunta ou uma afirmação.
O homem ao meu lado começou a se levantar, outros taxistas se aproximaram para carregá-lo, ele assim como eu sangrava, eu não conseguia ouvir direito, eram berros, gritos, aquilo me irritava. Levaram o taxista machucado para algum lugar, pessoas ao meu redor me perguntavam coisas, outras se aproximavam do corpo estraçalhado em cima do carro. Alguém colocou a mão em meu ombro e se abaixou, eu olhei e vi um rapaz, segurou minha mão esquerda e me perguntou algo, eu apenas olhei e me perdi olhando dentro dos olhos dele, vi um caminho la, amigos, familia, e um cachorro, tudo isso dentro dos olhos dele.
O rapaz soltou minha mão e segurou meu rosto com as duas mãos e perguntou:
– Moça, você está bem?
Eu só consegui esticar meu braço direito pra ele poder pegar o papel da minha mão.
Continua…


3>> Bem vinda ao mundo!

Algumas pessoas acreditam que não merecem ser amadas, se escondem no vazio tentando não lembrar do passado.
         Quando abri meus olhos senti meu cabelo cobrindo parte do meu rosto, a outra parte estava afundada na terra que tinha um cheiro úmido, mistura de musgo com folhas secas. Era dia e eu nao sabia a quanto tempo eu estava ali. Mexi  meus dedos, uma das mãos estava enfiada na terra e a outra estava fechada em punho, senti que eu segurava algo, um papel.
Com a mão vazia eu retirei o cabelo do rosto, comecei a escutar o barulho ao longe, carros, pássaros. Levantei a cabeça um pouco e vi árvores ao meu redor, estava acabando de amanhecer e os sons não estavam muito perto. Ajeitei minhas pernas e com muito esforço e muitas dores eu me sentei. Olhei novamente ao meu redor, era uma floresta com arvores grandes e chão limpo, olhei pra baixo pra me ver, um tenis preto, calças jeans, camiseta branca rasgada nos ombros e um casaco preto por cima.
Olhei pra minha mão fechada e abri para ver o que tinha, era um papel com um endereço, nada fazia sentido. Eu nao sei o que eu estava fazendo ali toda suja, sentia minha garganta arder, mas tudo estava inteiro em mim, porém uma enorme dor nas costas, que me privava de movimentos rapidos. Eu comecei a pensar, e percebi que não lembrava de nada, nada antes de abrir os olhos. Quem sou eu?
Coloquei o papel com endereço em um dos bolsos, não havia nada em nenhum deles. Apoiei minhas mãos no chão para conseguir levantar. Cambaleei ao endireitar o corpo e senti minhas costas arderem como fogo, fez minha cara toda franzir.
Um passo, depois outro e de vagar eu fui caminhando em direção ao som, até que encontrei uma calçada, ajeitei meus cabelos, tirei as folhas secas grudadas e me dei umas batidas pra tirar o resto da terra do corpo, ainda era muito cedo. Ao loge vi uma pessoa caminhando, logo vi outra correndo, depois uma bicicleta. Acompanhei pela calçada e encontrei um lago com patos e cisnes nadando. Continuei sem saber pra onde, ou o que fazer, eu estava em um parque, longe eu via edificios altos, ao meu redor, além do lago, tinham muitas árvores, jardins com flores coloridas e gramados, alguns bancos ao longo da calçada. Foi num desses que eu sentei, apoiei os cotovelos nos joelhos e as mãos no rosto, tapando os olhos. Quando fechei os olhos vi flashes de luzes e vi minha mão escrevendo em uma folha de papel, abri os olhos rapido. Foi a primeira lembrança que tive, fechei novamente os olhos, mas nao vi mais nada.
Tentei me concentrar na folha e percebi que era o mesmo papel que eu segurava ao acordar. Corri as mãos pelos bolsos para achá-lo. Aquilo deveria fazer algum sentido? Pelo menos era uma pista, resolvi então começar por ai e encontrar o lugar indicado no papel que provavelmente eu havia escrito.
Continua…


2>> Waking!

Então, um dia eu acordei…
Quando eu abri os olhos eu percebi que tudo estava difente, porém eu nao lembrava de como era antes.
Nada era igual.
Desde esse dia,  estou aqui, tentando viver uma vida que nao é minha e enteder porque estou aqui.
Mas é sempre o mesmo sentimento: Acordar querendo que o dia acabe e dormir querendo não acordar.
Oque aconteceu comigo? Onde eu me perdi?
As vezes só é difícil. 


1>> Epílogo

Não há uma razão para as coisas serem do jeito que são.
A vida é simplesmente um emaranhado de fios, que se embolam e tecem algo sem sentido.