Algumas pessoas acreditam que não merecem ser amadas, se escondem no vazio tentando não lembrar do passado.
         Quando abri meus olhos senti meu cabelo cobrindo parte do meu rosto, a outra parte estava afundada na terra que tinha um cheiro úmido, mistura de musgo com folhas secas. Era dia e eu nao sabia a quanto tempo eu estava ali. Mexi  meus dedos, uma das mãos estava enfiada na terra e a outra estava fechada em punho, senti que eu segurava algo, um papel.
Com a mão vazia eu retirei o cabelo do rosto, comecei a escutar o barulho ao longe, carros, pássaros. Levantei a cabeça um pouco e vi árvores ao meu redor, estava acabando de amanhecer e os sons não estavam muito perto. Ajeitei minhas pernas e com muito esforço e muitas dores eu me sentei. Olhei novamente ao meu redor, era uma floresta com arvores grandes e chão limpo, olhei pra baixo pra me ver, um tenis preto, calças jeans, camiseta branca rasgada nos ombros e um casaco preto por cima.
Olhei pra minha mão fechada e abri para ver o que tinha, era um papel com um endereço, nada fazia sentido. Eu nao sei o que eu estava fazendo ali toda suja, sentia minha garganta arder, mas tudo estava inteiro em mim, porém uma enorme dor nas costas, que me privava de movimentos rapidos. Eu comecei a pensar, e percebi que não lembrava de nada, nada antes de abrir os olhos. Quem sou eu?
Coloquei o papel com endereço em um dos bolsos, não havia nada em nenhum deles. Apoiei minhas mãos no chão para conseguir levantar. Cambaleei ao endireitar o corpo e senti minhas costas arderem como fogo, fez minha cara toda franzir.
Um passo, depois outro e de vagar eu fui caminhando em direção ao som, até que encontrei uma calçada, ajeitei meus cabelos, tirei as folhas secas grudadas e me dei umas batidas pra tirar o resto da terra do corpo, ainda era muito cedo. Ao loge vi uma pessoa caminhando, logo vi outra correndo, depois uma bicicleta. Acompanhei pela calçada e encontrei um lago com patos e cisnes nadando. Continuei sem saber pra onde, ou o que fazer, eu estava em um parque, longe eu via edificios altos, ao meu redor, além do lago, tinham muitas árvores, jardins com flores coloridas e gramados, alguns bancos ao longo da calçada. Foi num desses que eu sentei, apoiei os cotovelos nos joelhos e as mãos no rosto, tapando os olhos. Quando fechei os olhos vi flashes de luzes e vi minha mão escrevendo em uma folha de papel, abri os olhos rapido. Foi a primeira lembrança que tive, fechei novamente os olhos, mas nao vi mais nada.
Tentei me concentrar na folha e percebi que era o mesmo papel que eu segurava ao acordar. Corri as mãos pelos bolsos para achá-lo. Aquilo deveria fazer algum sentido? Pelo menos era uma pista, resolvi então começar por ai e encontrar o lugar indicado no papel que provavelmente eu havia escrito.
Continua…