Se perder de si mesmo te faz encontrar coisas que você não imaginava que existiam,  e essas coisas nem sempre são boas.
Caminhei de vagar pelo parque, minhas costas queimavam, levei mais de uma hora pra atravessar o parque em direção aos edifícios. Quando deixei as arvores e gramados para tras dei de encontro com uma avenida, bastante movimentada, carros, motos, pessoas andando rápido, prédios enormes que tiravam a luz do sol das calçadas. Parei um instante pra olhar melhor as coisas e decidir pra que lado seguir, alguém passou rápido quase levando meu ombro junto, falou algo que eu não pude distinguir, resolvi ir para a mesma direção.
Eu andava de vagar, as pessoas me ultrapassavam, parei em frente a uma janela de vidros enormes, la dentro estavam pessoas sentandas, lendo, comendo, quando alguém abriu a porta senti uma nuvem invadir meu cerebro com o cheiro que saiu com a pessoa, coloquei as mãos sobre meu estomago que reclamava alto, um instinto que eu nao conhecia. Estranho porque eu sabia que precisava de dinheiro pra poder estar la dentro, mas de onde vinha essa consciência? Era melhor eu continuar minha caminhada, eu estava com o endereço nas mãos. Não sabia o que fazer com ele, até que avistei alguns carros, taxis eu acho. Talvez ali eu conseguisse inforamaçoes pra onde ir.
Estava me aproximando de um dos homens que passava uma flanela no parabrisas do carro, ele se virou e me viu, percebeu que eu ia pedir algo, quando eu ia esticando minha mão para entregar o papel com o endereço escutei um assovio alto e logo em seguida um estrondo muito mais alto que me fez apertar os olhos. Uma pressão me jogou sentada no chão, senti estilhaços cortarem meu rosto. Pareceu camera lenta, senti o ar me carregando, os braços voando para tras, meus olhos fechando e vendo os estilhaços de vidro vindo em minha direção, até que cai, foi apenas um segundo. Eu abri os olhos e vi o homem da flanela caído de bruços ao meu lado, firmei minhas mãos no chão, que arderam, quando olhei para frente vi o carro que um segundo antes estava limpo e brilhando, agora estava afunilado no meio, sem os vidros, parecia que algo tentou dobrá-lo ao meio e não consegui totalmente. Ao focalizar no meio do carro eu vi algo se mecher, era um homem, novo ainda talvez, sangue escorria dele, por todos os lados, ele abriu os olhos e os arregalou quando me viu. Antes de abandonar seu corpo de vez ele fixou os olhos em mim e disse: VOCÊ.
Não sei se era uma pergunta ou uma afirmação.
O homem ao meu lado começou a se levantar, outros taxistas se aproximaram para carregá-lo, ele assim como eu sangrava, eu não conseguia ouvir direito, eram berros, gritos, aquilo me irritava. Levaram o taxista machucado para algum lugar, pessoas ao meu redor me perguntavam coisas, outras se aproximavam do corpo estraçalhado em cima do carro. Alguém colocou a mão em meu ombro e se abaixou, eu olhei e vi um rapaz, segurou minha mão esquerda e me perguntou algo, eu apenas olhei e me perdi olhando dentro dos olhos dele, vi um caminho la, amigos, familia, e um cachorro, tudo isso dentro dos olhos dele.
O rapaz soltou minha mão e segurou meu rosto com as duas mãos e perguntou:
– Moça, você está bem?
Eu só consegui esticar meu braço direito pra ele poder pegar o papel da minha mão.
Continua…